
A separação foi conturbada, e mesmo meses depois eles ainda mal conseguiam realizar as tarefas mais simples, como escovar os dentes e escalar montanhas íngremes e escorregadias (as de gelo eram as piores), que era o caso dela, ou calçar as meias com as cores combinando e escavar túneis secretos em um mortífero campo minado, que era o caso dele. Eles também choravam muito, eram carregamentos-jumbo de lenços de papel soft, travesseiros fofos e músicas melosas, porque a mera lembrança das situações sombrias e desesperadoras que os dois tiveram de enfrentar me faz querer hibernar de tanta tristeza. Uma situação sombria e desesperadora é quando você chora alto, aperta os olhos com força e, apesar de, na grande maioria das vezes, tudo isso não passar de uma mise-en-scene que antecede a famosa espiadela para conferir se o efeito do álcool iodado (ou mercúrio-cromo) já passou, continua sentindo a dor da recém-borrifada de anti-séptico no seu joelho ralado por umas sete ou oito horas.
Na verdade, doze. Eu mesma tenho pesadelos constantes em que minha mãe me coloca numa banheira de mertiolate por um dia inteiro, depois de eu me ter me esborrachado numa daquelas quedas de bicicleta suicidas – uma ladeira de 90o graus, asfalto brilhando de minúsculas pedrinhas assassinas e freios que não funcionam direito. Ui.
Só para vocês sentirem, de leve, o que é a dor lancinante.
No entanto, por mais que ele tenha praticado seus sofrimentos mais impensáveis, tinha sido impossível prever a dor de estar separado de seu único, e verdadeiro amor. Daí o choro. E o ardor que não passava com nada. E a dificuldade em realizar tarefas difíceis. E uma tal compulsão por escrever versinhos como este:
Meu coração
É só um pedaço
De queijo de rato
No prato
Ah, isso me mata. Não mata vocês também?

